Prisão abre disputa por comunicação, legado de Bolsonaro e poder de influenciar 2026

A prisão definitiva de Jair Bolsonaro (PL), condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos de reclusão por tentativa de golpe de Estado, abriu uma disputa silenciosa, mas intensa, dentro do Partido Liberal e da própria família do ex-presidente. O foco agora está em quem terá o direito — e o poder — de falar em nome de Bolsonaro enquanto ele cumpre pena, isolado em cela especial da Polícia Federal, em Brasília.

Bolsonaro cumpre pena por tentativa de golpe e está sob cuidados médicos após crise de saúde.

Desde que foi preso no dia 25, as articulações em torno da imagem, do legado e da influência política de Bolsonaro se intensificaram nos bastidores da legenda que o abriga. Com a proximidade das eleições de 2026, o controle sobre sua comunicação se tornou peça-chave para os grupos que orbitam o bolsonarismo.

Durante reunião fechada na sede do PL, realizada em 24 de novembro, um dia antes da prisão definitiva, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) foi oficialmente ungido como o porta-voz do pai. A escolha não agradou a todos. Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho que vive nos Estados Unidos, defende que a representação do ex-presidente deveria ser compartilhada entre os membros mais próximos da família, como Carlos Bolsonaro e Michelle Bolsonaro, por considerar que todos têm acesso direto e legitimidade emocional para falar em nome do patriarca.

“O tempo em que meu pai estiver preso vai haver essa confusão: quem fala por ele?”, afirmou Eduardo em entrevista. “Cada um tem sua relação com ele e isso precisa ser respeitado”, completou.

A tensão aumentou após a veiculação de uma nova campanha de filiação partidária, lançada pelo PL em rede nacional, sem menção direta a Bolsonaro. Flávio questionou o marqueteiro Duda Lima durante a reunião: “Por que meu pai não está nas inserções?”.

O desconforto se intensificou nas redes sociais bolsonaristas. A influenciadora Keila Prado, por exemplo, com mais de 300 mil seguidores, criticou duramente o foco institucional da campanha. “Vocês colocam propaganda de filiação com Bolsonaro preso? Vocês estão de sacanagem”, disparou em vídeo que viralizou.

A justificativa oficial do partido é que a campanha estava planejada desde antes da prisão e contou, inclusive, com a participação de nomes como Flávio, Michelle, Nikolas Ferreira e o presidente Valdemar Costa Neto. Mesmo assim, o episódio escancarou a fragilidade da coordenação de comunicação do PL em um momento delicado para o bolsonarismo.

A comunicação é apenas uma das frentes em jogo. Bolsonaro, mesmo preso, ainda influencia diretamente a montagem de chapas para as eleições de 2026. Ele já indicou que quer Michelle como candidata ao Senado pelo Distrito Federal e Carlos por Santa Catarina, mostrando que pretende manter protagonismo mesmo sem liberdade plena.

Além disso, o Senado se tornou uma obsessão para o núcleo bolsonarista, por ser a casa que poderia abrir caminho para possíveis ações contra ministros do STF. Bolsonaro, mesmo fora do jogo eleitoral, ainda é considerado peça central para o bolsonarismo.

PL suspende salário e filiação

Outro ponto de atrito ocorreu quando o PL anunciou a suspensão do salário de R$ 34 mil e das atividades partidárias de Bolsonaro, em razão da perda de seus direitos políticos. Flávio saiu em defesa do partido, reforçando que a medida era obrigatória por força da legislação, e não uma decisão política. Michelle compartilhou a explicação, buscando manter a unidade no discurso — algo que ela mesma cobrou durante a reunião ao pedir que “roupa suja” fosse lavada internamente, não nas redes.

Divisão familiar e riscos para 2026

A entrevista de Eduardo Bolsonaro, no entanto, apontou para outra direção. Ele defendeu que atritos públicos devem ser respondidos publicamente e alertou para o risco de a direita se fragmentar em projetos individuais.

Com Bolsonaro preso, fora da linha direta de articulação, o bolsonarismo entra em uma fase de incertezas — com múltiplos polos tentando preservar sua influência, enquanto a narrativa de perseguição política segue como estratégia central para manter a base mobilizada até o próximo ciclo eleitoral.

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