Setor leiteiro projeta 2026 desafiador após queda de preços e sobreoferta em 2025

As perspectivas para 2026 no setor leiteiro brasileiro indicam um cenário de cautela, após um 2025 marcado por produção recorde, sobreoferta e queda significativa nos preços pagos ao produtor. O mercado global começa o ano com oferta elevada, enquanto o ambiente econômico interno aponta para desaceleração do crescimento e manutenção de juros altos.

Segundo análise de pesquisadores da Embrapa Gado de Leite, o curto prazo segue desafiador, embora existam sinais pontuais de ajuste no mercado.

Mercado internacional inicia ano com preços baixos

A oferta global de lácteos permanece elevada, impulsionada pelo crescimento produtivo observado em 2025 em países como Argentina (7%) e Uruguai (8%). Para 2026, a expectativa é de crescimento mais moderado, influenciado por margens apertadas e incertezas geopolíticas na Venezuela, Irã e no Leste Europeu.

O pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Samuel Oliveira, afirma que os preços internacionais continuam baixos no início do ano. “Movimentos de alta percebidos no último leilão GDT devem ser percebidos como correções pontuais de preços”, destaca. O GDT (Global Dairy Trade) é uma das principais plataformas mundiais de comercialização de lácteos.

No Brasil, o valor pago ao produtor chegou a US$ 0,36/kg, reflexo da elevada oferta. O mercado spot, no entanto, começou a apresentar reação, indicando possível movimento de recuperação. Por outro lado, a valorização recente do real frente ao dólar pode tornar o produto importado mais competitivo.

Ambiente macroeconômico adiciona incertezas

O cenário macroeconômico brasileiro para 2026 projeta crescimento do PIB de 1,8%, abaixo dos 2,3% estimados para o ano anterior. O ano eleitoral adiciona fatores como volatilidade cambial e expectativa de aumento dos gastos públicos, em um contexto de juros elevados para controle da inflação.

Para Oliveira, o momento exige planejamento estratégico. “As transformações no setor são rápidas e quem não acompanhá-las ficará para trás. É preciso buscar o aumento de produtividade e a redução de custos ou a agregação de valor”, afirma.

Produção recorde e queda de preços em 2025

Em 2025, a produção de leite cresceu 7,2% em relação a 2024, alcançando patamar histórico. Mesmo com queda de 4,2% nas importações na comparação anual, o déficit da balança comercial foi de aproximadamente 2 bilhões de litros equivalentes, tendo o leite em pó como principal item importado.

A combinação desses fatores gerou sobreoferta no mercado interno, pressionando os preços ao produtor, especialmente a partir de abril. Em dezembro de 2025, o litro foi cotado a R$ 1,99, queda de 22,6% em 12 meses, conforme dados do Centro de Inteligência do Leite (Cileite/Embrapa).

Já para o consumidor, a cesta de lácteos registrou recuo médio de 3,62%.

Custos e rentabilidade

Apesar da queda nos preços ao longo do segundo semestre de 2025, a média anual ainda permitiu rentabilidade ao produtor, impulsionada por um primeiro semestre favorável.

O Índice de Custo de Produção de Leite (ICPLeite/Embrapa) subiu 3,0% até dezembro, abaixo da inflação oficial de 4,3%. A estabilidade nos preços de insumos como milho e soja contribuiu para amortecer o impacto negativo da queda do leite.

“Essa estabilidade no custo de produção criou um certo amortecimento do efeito negativo da queda do preço”, explica Samuel Oliveira.

Desafio estrutural: produzir mais do que o mercado absorve

O crescimento da produção (7,2%) contrastou com o avanço do consumo interno, estimado em menos de 2% em 2025. O cenário evidenciou uma fragilidade estrutural: o Brasil produz mais leite do que o mercado doméstico consegue absorver sem forte ajuste de preço, mas ainda não exporta excedentes de forma consistente.

Segundo Glauco Carvalho, pesquisador da Embrapa Gado de Leite, é necessário elevar a competitividade para romper o ciclo de excesso de oferta e queda de preços. “Se o mercado interno não cresce, a produção também não pode crescer. Precisamos reduzir custos e começar a exportar”, afirma.

Tecnificação e acordo com a União Europeia

O setor também passa por mudança estrutural, com maior concentração da produção em grandes fazendas mais tecnificadas e profissionalizadas. Atualmente, o Brasil conta com cerca de 513 mil produtores, segundo estimativa do Cileite.

A aprovação do Acordo Mercosul-União Europeia, em janeiro de 2026, abre novas expectativas para o comércio bilateral. O setor de lácteos permanecerá relativamente protegido, com cotas modestas para leite em pó e queijos. A muçarela ficou fora do acordo, enquanto a manteiga terá redução tarifária imediata de 30%.

Para Carvalho, o acordo pode funcionar como certificação internacional. “Se aprimorarmos nossas questões sanitárias e de qualidade para atender aos padrões europeus, isso nos credencia globalmente”, analisa.

O acordo ainda depende de ratificação e análise pelo Tribunal de Justiça da União Europeia, o que pode atrasar sua implementação. Mesmo assim, partes podem ser aplicadas de forma provisória.

Diante desse cenário, 2026 começa com margens apertadas, necessidade de eficiência produtiva e expectativa de ajustes graduais no mercado leiteiro brasileiro.

embrapa

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